#QuemNunca sentiu o coração
disparar ao ver esse ícone nas
notificações do celular?
Com custo quase zero, o WhatsApp revolucionou o mundo da comunicação instantânea. Uma mistura de msn com sms, o aplicativo para celulares conquistou milhões de usuários nos últimos anos. Ele é prático, permite o envio gratuito de mensagens para outro celular que também possua o aplicativo, tem emotions engraçadinhos, permite a criação de grupos, além de diversas outras ferramentas de interação.
Acho lindo e utilizo muito, mas tem ali uma coisa me incomoda: a cobrança pela instantaneidade das respostas que o programa possibilita que os usuários cobrem um dos outros. Você enviou a mensagem, ela chegou ao destinatário (você viu pelos dois certinhos do lado direito da caixa de texto), o seu “amigo” do outro lado ficou online, mas não respondeu na hora. Pronto, já vira motivo pra briga: “Ele é um fdp, eu mandei WhatsApp, ele viu e não respondeu”.
No msn, até o incorporarem ao e-mail, sabíamos que a troca de mensagens seria instantânea durante todo o tempo em que estivéssemos online. Uma vez off, essa obrigatoriedade acabava. Para estar on precisávamos estar disponíveis em frente a um computador. A loucura que o WhatsApp proporciona é a inversão disso: por ser um aplicativo para celulares, o usuário está disponível o tempo todo e, diferentemente do que acontece com as velhas mensagens de texto, não pode se dar ao luxo de deixar pra responder depois que já é dedurado pelo programa.
Obviamente que a minha crítica aqui não é ao aplicativo, mas aos usuários. Esse tipo de ferramenta alimenta a carência e o sentimento de inferioridade das pessoas, que no mundo em que vivemos já possuem pouca estrutura psicológica e emocional e aproveitam qualquer brecha para criar uma cena dramática. Ninguém para pra pensar que respostas a longo prazo denotam um maior tempo para reflexão. Qualquer tipo de texto precisa de tempo para ser pensado e ficar coeso, se você procura reações imediatas, escolheu a forma de comunicação errada.
O Facebook também adotou há alguns meses essa função “dedo duro”, mostrando quando você visualizou a resposta, mesmo que não tenha respondido, o que ocasiona o mesmo turbilhão de sentimentos que eu citei acima falando do “Whats”. Esses serviços estão nos deixando ainda mais mimados, “queremos respostas e queremos agora!”. Se a sensação proporcionada pelos smartphones de estar disponível o tempo todo já é aterrorizadora, ter a obrigação de responder na hora é quase uma ferramenta de tortura psicológica.
Conheci Carlos Drummond de Andrade aos 16 anos de idade e ele mudou a minha vida. Antes de encontrar a poesia, e ele foi o meu mentor neste mundo colorido, eu não sabia que outra pessoa, que sequer me conhece, poderia saber muito sobre o que eu sinto. Claro que não poderia ser uma pessoa qualquer, tem que ser assim um Drummond. Eu digo sempre e repetirei todas as vezes que tiver uma brecha: o poeta de Itabira sabe mais sobre mim do que eu mesma. Drummond foi o meu anjo torto, que me visitou quando eu nasci para este novo mundo.
O dia a dia, que junta todas aquelas coisas burocráticas, certinhas e quadradas, teima em nos afastar do mundo do arco-íris que existe na dimensão poética. Mesmo sendo pouco visitado, ele continua lá. É só entrar e se aconchegar... no meu caso, sempre que consigo me desligar daqui e ir pra lá, encontro Drummond sentado no chão, com um sorriso nos finos lábios e um livro na mão. Leio, leio, leio. No fim, ele sempre acerta. Na mosca.
Nestes seis anos, foram inúmeras poesias encontradas ao abrir os seus livros, alguns tão especiais que se tornaram "livros de cabeceira". Foi em um desses, o "Alguma Poesia", que eu encontrei o poema que publico abaixo. É um daqueles que eu comentei acima, que depois que você termina de ler, pensa: "como ele conseguiu descrever o que eu tô sentindo?".
APARIÇÃO AMOROSA
Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto… o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola. Tua visita ardente me desola. Tua visita, apenas uma esmola.
Fico imaginando a trabalheira que deve ser resumir o que é o Brasil, só pra inglês ver, literalmente, em apenas cinco minutos. O pior é que a organização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro não teve que fazer isso uma, mas sim duas vezes: no encerramento das Olimpíadas em agosto e menos de um mês depois no fechamento das Paraolimpíadas (que aqui no ETVC eu me recuso a escrever sem o “o”).
Frente a tamanho desafio, é impossível agradar a todos. O resultado no encerramento das Olimpíadas foi uma mistura de clichês (baianas, carnaval, Bossa Nova, índios) com símbolos nem tão pops assim, como Simonal e a Nação Zumbi - destaque e estrelinhas para esse último, porque CHICO SCIENSE sabia das coisas, mas isso fica para outro post.
Demorei dois parágrafos para chegar onde eu queria: analisar os cinco minutos da demonstração de “mundo, isso é o Brasil” no finalzinho do encerramento das Paraolimpíadas de Londres. O vídeo está aí embaixo para quem quiser ir assistindo para acompanhar o meu raciocínio.
Me emocionei demais quando assisti essas apresentações, mais do que com a menção a Sciense um mês atrás. Depois que o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, recebeu a bandeira dos Jogos, a festa começou. Aviso: vou me atropelar neste relato com um distanciamento que aprendi nas aulas de Cultura Brasileira (beijo Ju – minha professora) e com um nacionalismo que eu teimo em camuflar, mas que sempre aparece.
A festa brazuca começou mergulhada no conceito “Alegria” e no videozinho com cenas da cidade. De volta ao estádio olímpico, rola uma um funk carioca ritmado com uma letra que não faz sentido pra mim, imagina para os britânicos. Mas dura pouco. Neste momento, CARLINHOS BROWN entra no palco acompanhado de músicos – portadores de deficiência física – vestindo roupas semelhantes a do Olodum.
Brown é o de sempre. Ele dubla “Mega Lenha” e veste roupa branca com um cocar na cabeça. Fico pensando que os gringos devem achar que ele se fantasiou assim só pra participar da cerimônia. Coitadinhos, não manjam nada deste baiano arretado e animado, que durante a apresentação, do nada, é interrompido pelos PARALAMAS DO SUCESSO.
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, recebe a bandeira dos Jogos do presidente do Comitê Paralímpico Internacional
Nesse momento aplaudo de pé os organizadores que tiveram essa sacada. Hebert Viana ficou paraplégico depois de um acidente com o seu ultraleve, e junto com a sua banda representou não só os portadores de deficiência motora, mas também o ROCK’N ROLL brasileiro. Claro, que frente ao cânone britânico do estilo ele se apequena, mas, é preciso gritar ao mundo que ele existe (embora concorde que a batida animada de “A Brasileira” certamente não fará os gringos identificarem aquilo como rock...).
Hebert, Bi, João Barone e as dançarinas de frevo (?) que se apresentavam durante a execução de “A Brasileira” – que tem tudo a ver com a ocasião, por sinal - são substituídos por dançarinas de balé e de capoeira. Ai vem a parte questionável dos cinco minutos de show. Vamos lá.
Carlinhos Brown volta ao palco acompanhado da cantora Thalma de Freitas... vestida de Carmem Miranda. Sem as frutas na cabeça, é verdade, mas claramente representando a cantora portuguesa criada para ser um “símbolo nacional”. Eles cantam Caetano Veloso. Uma baianidade só. Caê, Thalma e Carlinhos. Lindo. Pergunto: PRA QUE EVOCAR CARMEM MIRANDA?
Sob o comando de Thalma de Freitas (roupa colorida) e Carlinhos Brown, á esquerda, 'brasileiros' celebram os Jogos
Sim, ela foi um símbolo brasileiro internacional, mas isso faz décadas. Quantas mil outras referências não poderiam ter sido feitas. Se eu começar o papo sobre o simbolismo dela e tal (mais um beijo, Ju) vou acabar me irritando, então, vou pular para as considerações finais – emocionada de novo por ter visto de novo os Paralamas tocando no vídeo -, ok?
Aqueles cinco minutos não são o Brasil. Nem o das Olimpíadas eram. Nem se juntássemos as duas apresentações, os 10 minutos não o seriam. No entanto, o são também. Não vai dar pra definir o que é Brasil, nunca. É preciso vir aqui sentir o sol quente, a água salgada dos mares, a poluição paulistana, o trânsito, o rap, o forró, o reggae e blábláblá. Se cada um dos brasileiros editasse um vídeo de cinco minutos, seria um vídeo diferente para cada.
Sou contra a Copa e as Olimpíadas aqui. Acho absurdo. Mas já que está decidido, agora é olhar pra frente, fiscalizar os gastos públicos e torcer pra dar certo. Porque às vezes – cada vez mais raramente, é verdade – eu me pego a maior das ufanistas, concordando com Afondo Celso sobre o Brasil ser o país do futuro. Mas com uma diferente: eu sei que esse futuro está cada vez mais perto. _